sábado, 5 de agosto de 2017

Trier, Alemanha

Marcos importantes da História de Trier

Trier é a cidade romana mais antiga da Alemanha. O território era originalmente ocupado por celtas, mais precisamente por uma mistura de tribús celtas e germânicas, e foi conquistado pelo "mulherengo, mas ótimo general" - segundo um jornalista muito bem-humorado que escreveu a sua versão sobre a História de Roma - do Júlio César durante as Guerras Gálicas entre os anos de 58-50 a.C. . Uma cidade romana, propriamente dita, seria fundada mais tarde por Augusto, em 16.a.C..
Trier tem uma comunidade cristã desde o final do II século e é sede episcopal desde o IV século.  Aqui nasceu Santo Ambrósio, bispo de Milão no IV século.

A cidade tem hoje quase 120.000 habitantes e representa uma longa continuidade habitativa com várias áreas arqueológicas que podem ser visitadas, testemunhas desde o período romano, passando pela Idade Média e Renascimento local. Karl Marx nasceu em Trier. Além de tudo isso, Trier é uma cidadezinha simpaticíssima!

Desde 1986 vários monumentos entraram para a lista UNESCO: Porta Nigra, o Anfiteatro, as Kaiserthermen, as Barbarathermen, a Ponte Romana, a Basílica de Constantino, a Catedral e a coluna que fica fora da cidade, Igeler Säule (um monumento funerário do III séc. d.C. que não consegui visitar desta vez).

O que ver em Trier

Trier é uma mini-Roma, por isso as suas atrações turísticas se dividem em áreas arqueológicas e igrejas e podem servir como indicação para as explorações: um dia de arqueologia, um dia de igrejas e Museu.

Porta Nigra em Trier


Existem duas termas antigas , um portão de muro do II séc. d.C., uma basílica do IV século (razão pela qual decidi fazer esta viagem) e um pequeno anfiteatro. O Landesmuseum Trier tem salas dedicadas à geologia do território, objetos dos Celtas, decorações prestigiosas romanas, objetos e sarcófagos romanos enormes - como nunca tinha visto. Uma catedral  do IV século construída sobre ruínas de uma domus romana, uma igreja medieval de São Maxim e uma igreja barroca (São Paulino).

Arqueologia em Trier

Comecei meu primeiro dia nas margens do simpaticíssimo Mosel, pois decidi ficar perto do rio e a 8 minutos de caminhada da Porta Nigra.

Porta Nigra



No dia da chegada, fui dar uma olhada no geral das distâncias e vi em primeiro lugar a Porta Nigra. Construída aproximadamente em 180 d.C. e já chamada "Porta Nigra" na Idade Média, é o portão romano antigo em melhor estado de conservação ao norte dos Alpes, isto é, fora da Itália. Interessante o que a guia nos contou sobre as pedras cinzas arenosas que o compõem: vêm de uma zona a 15km de Trier, pois o material que poderia ter sido utilizado encontrado aqui não era resistente o suficiente (uma pedra vermelha).

Os blocos foram cortados por um sistema de serras em bronze movidas por um moinho a água e montados sem cimento; os blocos eram fixados por pinos de ferro, como no Coliseu, e também tiveram o mesmo destino: durante a Idade Média os pinos tinham um grande valor por serem de ferro e foram removidos, não sem algum dano à estrutura!

As torres arredondadas permitiam aos arqueiros uma melhor zona de ação em caso de ataque. Em 1028 o monge grego Simeon ocupou uma parte do portão, onde viveu como Eremita e morreu em 1035. Ele foi enterrado aqui e santificado no mesmo ano. Quinhentos anos depois, o cardeal Popo von Babenberg (últimos anos do séc. XV) mandou construir duas igrejas em sua homenagem, que foram desmontadas por ordem de Napoleão no século XIX (1804-1809). 

Ponte Romana e Barbara Thermen

Meu segundo objetivo foi a Ponte Romana, construída entre os anos 17-16 a.C.. e tem 370m de extensão. A guia nos disse que a ponte é hoje vista do ponto de vista funcional, como simples obra de engenharia pela população! No Landesmuseum os seus pilares são apresentados como a "Certidão de Nascimento de Trier", pois calcularam a data da madeira utilizada.

Pilares da Ponte Romana de Trier no Landesmuseum

A primeira restauração é de 71 d.C., após um período de guerra. A  ponte foi sucessivamente remodelada na sua base no II século e no IV século. Por mil anos a ponte foi a unica ligação entre as cidades de Koblenz e Metz. No séc. XVII a ponte foi explodida pelas tropas francesas e só foi reconstruída no século XVIII. Na II Guerra Mundial a ponte sobreviveu aos bombardamentos e por ali passaram os americanos em 1945. Somente nos anos '60 do século XX os pilares romanos de madeira foram subsituidos por concreto.


Ponte Romana de Trier

Prossegui para as termas "Barbara Thermen", construídas no II séc.d.C. e segundo maior edifício termal de todo o império romano, com uma utilização de 1230m³ de água por dia - infelizmente sobrou muito pouco em muros e pisos!

Passeio ao longo do Mosel, Ponte Romana

Este nome tão "cristão" se deve a um mosteiro para freiras domenicanas que foi construído sobre estas ruínas no XIII século, que depois de várias vicissitudes de guerra, foi definitivamente destruído em 1674. Existe uma passarela gratuita sobre as Termas, com vários painéis explicativos e uma maquete em bronze da cidade.

Termas de Barbara, ou Barbarathermen

Modelo em broze da cidade antiga e seus monumentos


Seguindo sempre reto na Kaiserstraße, não podia não ir direto para o Anfiteatro, pois olhando o mapa, resolvi contornar os monumentos mais periféricos para depois aproximar-me do centro. 

Kaiserthermen

Construídas no IV século, foram as últimas termas a serem construídas das três que aqui existiam - isto é, eram as mais "modernas" do ponto de vista tecnológico. O complexo de edifícios tinha dimensões de aproximadamente 250 x 145m e era localizado ao sul do palácio imperial. Este complexo termal nos lembra as Termas de Caracalla, pois possuía uma zona para ginástica (a Palestra) e uma zona com as piscinas de água fria, morna e quente, além de um labirinto de ambientes subterrâneos de serviço, que aqui é visitável.
Kaiserthermen, portão medieval de Trier

As termas não foram finalizadas por Constantino e já na segunda metado do IV século o complexo foi transformado em edifício com função representativa pelo imperador Valentiniano I. Durante a Idade Média, este edifício também serviu como "pedreira" para a construção de novos edifícios e a parte destinada a ser o calidarium, que tem 19m de pé direito, foi integrada nos muros de proteção da cidade.

Anfiteatro

Acredita-se que o anfiteatro tenha sido construido entre 160-200 d.C., junto com os muros da cidade. O anfiteatro tinha capacidade para aproximadamente 20.000 espectadores. Ele fica "longe" do centro, numa espécie de platô. E que pena que não sobrou nada, mas nada mesmo, do revestimento de mármore!

Anfiteatro e arena

Supõe-se que anfiteatro deve ter servido para espetáculos de lutas de gladiadores, lutas de animais, caça e festas religiosas - até aqui, como o Coliseu. Não aguento estes alemães do Vale do Mosel que onde vêem uma colininha já chegam com o pé de uva. É  videira para tudo quanto é lado! Como decoração da cidade, plantação, o mais importante é que tenha uva e vinho - adoro!


 Os subterrâneos, ao contrário do Coliseu em Roma, ficam sempre abertos ao público mas estão (estranhamente) em péssimo estado de conservação.

Maquete de Trieri - Visite o Landesmuseu para ver coisas maravilhosas  da cidade

Aqui temos percurso semelhante ao do Coliseu nos últimos dois mil anos: com a queda do Império Romano seu material serviu para a construção de outros edifícios e as escavações sistemáticas só iniciaram em 1816 - as últimas escavações aconteceram entre 1996-1999.

Anfiteatro de Trier: Subterrâneos e escadarias da arquibancada

Basílica de Constantino (ou "salão do Palácio Imperial")

Trier foi feita capital do Império do Ocidente por Diocleciano em 285, que estabeleceu a tetrarquia, dividindo o Império entre dois Augustos e dois Césares. Entre 293 e 305 aqui morou Constâncio Cloro ( pai do imperador Constantino) como César. Constantino morou em Trier entre 306 e 316. Trier foi por quase 100 anos a capital do Império do Ocidente.

Maquete da Basílica de Constantino no Landesmuseum de Trier

Finalmente, a grande estrela da minha curiosidade em Trier: a Basílica de Constantino. É dos assuntos mais interessantes para mim a ascensão do Cristianismo e as mudanças na arquitetura deste período.

Basilica de Constantino, Trier


Em Roma temos muitas igrejas do IV século que chegaram íntegras até nós, mas não temos palácios imperiais com quatro paredes, chão e teto - restos no Palatino e Fórum, sim. A Basílica de Constantino foi destruída em parte durante a II Guerra Mundial, mas foi reconstruída.

O edifício foi concebido junto com um complexo muito grande de edifícios imperiais para que o imperador exercesse seu poder. A sua construção é datada em torno ao ano de 310 (carimbos nos tijolos). As suas dimensões são de 67m de comprimento, 27,5 de largura e 30m de altura. As janelas dos lados longos têm dimensões de 7,58m (superiores) e 7,23m; a abside 6,80m (superiores) e 6,60m (inferiores).
 

Basílica de Constantino, Trier

Engenheiros, arquitetos e curiosos (como eu!) sempre se interessam pelas fundações dos edifícios antigos: sobre "o que" pousa esta construção tão maciça? As potentes paredes estão apoiadas em fundações que têm 4m de largura e entre 4 e 6 metros de profundidade. Relembro que a famosa receita do cimento romano ainda não foi completamente identificada; sabe-se quais eram os ingredientes, mas não as proporções. Sabe-se que o cimento romano ficava mais rígido com o passar do tempo e que se formavam cristais no interior da estrutura que impediam rachaduras. O Príncipe-eleitor Lothar von Metternich (1551-1623) quis integrar a basílica em uma estrutura de quatro corredores ao redor do seu palácio, ao lado da basílica; mas como o cimento era duro demais para demolir as estruturas antigas adjacentes, ele nunca viu a obra pronta - ficou pro seu sucessor, mesmo!

Quando Trier foi anexada ao Reino da Prússia, a basílica foi restaurada ao seou estado original e transformada em igreja protestante,  inaugurada em 1856.

A basílica e o Palácio do Príncipe-Eleitor de Trier


Aqui vemos vários detalhes típicos do requinte romano, realizados pelo grande arquiteto que infelizmente não conhecemos o nome: as janelas menores na abside acentuam a percepção da profundidade do ambiente, fazendo com que o potente edifício pareça ainda maior do que já é.
A basílica tinha um sistema de aquecimento das paredes (que conhecemos bem de Óstia Antiga) e do chão (hipocausto), naturalmente reguláveis.

Os tijolos que vemos hoje na superfície ficavam escondidos atrás de uma camada de reboque - por isso temos que imaginar esta construção com uma cor clara, um branco-acinzentado.

 
Interior Basilica Constantino, Trier

Queria muito entrar num edifício destas dimensões onde provavelmente sentou-se o imperador para dar audiência aos súditos; tentar imaginar o ambiente com o seu revestimento marmóreo; observar como a luz é filtrada, já que é particularmente luminosa esta construção, com duas enormes fileiras de janelas no lado longo e outras duas na abside, como as suas palavras deveriam ter ecoado no ambiente revestido de mármore...

Revestimento marmóreo do piso da basílica de Constantino de Trier

 É a partir destas basílicas (cuja definição é simplesmente "edifício de planta retangular" ou, da origem grega "casa" - ou corredor - do rei) que vão ser pensados os primeiros edifícios de culto da nova religião do IV século, a religião Cristã.

Basílica de Constantino, Trier,

Nos edifícios tardo-antigos e nos primeiros edifícios de culto cristão, não mais massas articuladas com colunas definirão o espaço, onde os póprios elementos arquitetônicos são os protagonistas da construção, mas um conceito completamente novo será aplicado nos novos edifícios: a justaposição de superfícies luminosas, fazendo com que a luz seja experienciada em um modo  completamente diferente do que acontecia até então, como salienta o Prof. Argan.
E é isso que vim fazer aqui: experimentar a luz da basílica de Trier!

É especialmente interessante visitar este monumento depois de ter visto pelo menos: Santa Maria Maior em Roma, Santa Sabina, São Paulo Fora dos Muros, Termas de Caracalla, Pantheon, São João em Latrão, o Salão dos Filósofos da Villa Adriana em Tivoli, a Villa dei Quintilli, em Roma e Óstia Antiga.

Os  únicos horários difíceis dos monumentos em Trier são os da Basílica, por isso aqui vão eles:
Novembro, Janeiro - Março:
3as - Sábado 10 - 12 e 14 - 16h
Domingos / 6as das 13 - 15h
Segundas-feiras fechada

Dezembro:
2a - Sábado 10 - 12 e 14 - 16h
Domingos e Feriados das 13 - 15h

Abril - Outubro:
2a a Sábado das 10 - 18h
Domingos e Feriados das  13 - 18h

Um segundo post falará das igrejas de Trier, e um terceiro do Festival Medieval que acontece no verão.

Fiquei hospedada na casa da Andrea, do http://thebackyard.de/ - welcome@thebackyard.de que aconselho muito por que é um lugar maravilhoso, perto da Porta Nigra e das margens do rio Mosel.... além de tudo Andrea é uma excelente anfitriã, passei três dias inesquecíveis em Trier e o apartamento dela contribuiu muito para as doces memórias que levo comigo!

Fale com a Andrea, do http://thebackyard.de/ - welcome@thebackyard.de

Apartamento para alugar em Trier http://thebackyard.de/ - welcome@thebackyard.de

Como colocar Trier na sua viagem

- Se já tiver planejado ver Colônia, você estará a ~180km de Trier.
- Se for à Bélgica e Luxembrugo, Trier fica a 15km de Luxembrugo.
- Se tiver vontade de fazer uma das estradas do vinho, em modalidade "férias relax", o vale do Mosel é maravilhoso; você pode iniciar a viagem em Koblenz e acabar em Trier (foi o que eu fiz, mas com o objetivo de visitar Trier!)

Bibliografia:

Visita guiada com guia da cidade de Trier http://www.trier-info.de

Sites com informações úteis em alemão:
Porta Nigra
http://www.trier-info.de/portanigra-info
Ponte Romana sobre o Mosel
http://www.volksfreund.de/nachrichten/region/trier/Trierer-Weltkulturerbe-Die-Roemerbruecke;art257994,2898952
O mosteiro de Santa Barbara
http://www.roscheiderhof.de/kulturdb/client/einObjekt.php?id=23330
As Kaiserthermen
http://www.traumsteige.com/kaiserthermen-im-labyrinth-der-roemischen-baederanlage/
Basílica de Constantino
http://www.treveris.com/konstantinbasilika.htm 
Landesmuseum Trier
http://www.landesmuseum-trier.de/

Material turístico informativo Rheinland Pfalz
Storia dell'Arte Italiana, G.C. Argan © 1977-1988, Sansoni
Wand, Fenster und Licht in der Trierer Palastaula und in der spätantiken Bauten, Roland Günter © 1968, Verlag Wilhelm Beyer, Herford

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